(por: José Rodolpho Assenço)

                        Ouro Fino e o Arraial do Ferreiro, fundados por Bartolomeu Bueno da Silva e seus amigos de bandeira no ano de 1726, no sertão de Goiás, hoje pouco restam a serem visitadas, somente ruínas. Mas estão na lembrança do povo e imortalizados na música do “Chico Mineiro”, de Francisco Ribeiro e Tinoco.

                        “Fizemos a última viagem.  Foi lá pro sertão de Goiás.  Fui eu e o Chico Mineiro.   Também foi o capataz.    Viajamos muitos dias.   Pra chegar em Ouro Fino.    Aonde nós passemo a noite.   Numa festa do Divino.  A festa tava tão boa.    Mas antes não tivesse ido.    O Chico foi baleado.    Por um homem desconhecido. Larguei de comprar boiada.  Mataram meu cumpanheiro.    Acabou-se o som da viola.    Acabou-se o Chico Mineiro. ”

                        Numa noite, na cidade de Goiás, eu, Cleber Medeiros (fotógrafo), Jaque Araújo (fotógrafa) e minha filha pensávamos numa maneira de chegar aos Arraiais extintos de Ferreiro e Ouro Fino. Caminhávamos pelo centro dessa bela cidade histórica, até que chegamos ao largo da Igreja da Boa Morte e nos sentamos na varanda do restaurante mais simpático da localidade, coincidentemente com o nome de “Espaço Ouro Fino.”

espaço_ouro_fino

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                        Imaginávamos, naquele momento, que teríamos que buscar um guia que conhecesse bem essa região.

                    No Espaço Ouro Fino, pedimos uma Pizza, especialidade da casa, quando questionei Cleber sobre conversarmos com o dono da pizzaria. Imediatamente ele imaginou aonde eu queria chegar e me respondeu que seria decepcionante receber uma resposta diferente da que gostaríamos de ter.

                        Ao final do jantar, no entanto, solicitamos a presença do proprietário do estabelecimento, o Chef Wellington Matos, nascido e criado na região. Quando perguntei sobre o nome do restaurante, imediatamente começou a relatar a sua história.

                        Wellington nos informou que inicialmente foi morar e trabalhar em Londres em um restaurante, no intuito de conhecer outras culturas e também a gastronomia diversificada. Depois se mudou para Nápoles, onde foi trabalhar como cozinheiro em uma rede de casas de massas e pizzaria, quando teria desenvolvido suas habilidades e decidido voltar a Goiás, para montar um restaurante e pizzaria em uma praça central. A essa altura, já havia definido o nome desse estabelecimento: “Ouro Fino”, nome do antigo arraial extinto.

                        A partir desse momento, ficou muito fácil chegar às ruínas, uma vez que, quando dissemos que iríamos para lá no dia seguinte, ele nos informou toda a rota a ser seguida.

                        Na forma combinada, partimos no dia seguinte por uma estrada de terra em péssimo estado, percorrendo aproximadamente uns seis quilômetros até o Arraial extinto do Ferreiro. Sabíamos  previamente que nada restava nesse arraial, a não ser a Igreja de São João Batista, que teria sido reformada recentemente.

igreja_de_são_joão_batista

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                        Assim que chegamos ao Ferreiro, estacionamos o carro na frente da cancela de uma fazenda, em uma sombra, e partimos em direção a bela igreja.

                        Construída em 1761 por José Gomes, possui características de um barroco arcaico, como muitas do ciclo do ouro.  Teria sido nesse local que Bartolomeu Bueno haveria encontrado ouro por indicação dos próprios índios Goyás.

                        Todo o ambiente da Igreja encontra-se cercado com moirões recém-colocados, que compõem a obra de restauração, para evitar que animais das fazendas circunvizinhas entrem e venham a esbarrar e destruir o monumento.

igreja_no_arraial_do_ferreiro

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                        Aproximamo-nos da soleira da Igreja, momento em que tomamos um susto brutal, quando diversos papagaios ou aratacas saíram em debandada pela porta.  Recompomo-nos do susto e partimos novamente para ultrapassar a porta de entrada do templo, quando novamente ficamos “congelados” ao vermos dois cachorros parecidos com Roithwailer partir em nossa direção.

nave_da_igreja_são_joão_batista

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                        Passada a sequências de sustos, seguimos para dentro da nave, visitando-a.

capela_são_joão_batista

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Fizemos o mesmo com a casa paroquial e os anexos da Igreja de São João Batista.  Visitamos, por fim, no ferreiro, o cemitério anexo à Igreja.

cemitério_no_ferreiro

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                        Finalizada essa estada, pegamos novamente o carro e seguimos pela sofrida estrada de terra em busca do Arraial de Ouro Fino, ou aquilo que sobrou de lembrança do Arraial. Padecemos nesse trajeto por aproximadamente uns dez quilômetros, até visualizarmos uma velha cruz, já torta e destruída pelo tempo em um vazio descampado.

cruzeiro_no_ouro_fino

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                    O Arraial de Ouro teve grande importância na região. Localizava-se exatamente na estrada real, ou parte da estrada geral do sertão, caminho único para se atingir Goiás, em um lugar aprazível, região bem mais alta que as demais cidades circunvizinhas. Possui um clima bem mais ameno e, próximo dele, há um córrego de nome Praia, de águas cristalinas e de onde se tirava um ouro de extrema qualidade, motivo inclusive do nome da localidade.

                        Antes de virar ruína, esse arraial possuía o Seminário Episcopal de Santa Cruz, inúmeras casas, sendo aproximadamente quarenta comerciais, além de escolas e a Igreja de Nossa Senhora do Pilar, da qual não sei precisar a data da construção.

                        Assim que chegamos lá, estacionamos o carro exatamente onde teria sido a Rua Direita do arraial e o caminho real. Logo avistamos as ruínas da Igreja do Pilar e a cruz da qual havíamos comentado.

igreja_de_nossa_senhora_do_pilar

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                        Tiramos fotos de diversos ângulos do que seriam as paredes da torre da nave principal das salas laterais.

ruinas_da_torre_sineira

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                        Naquele momento, Jaque e Carol subiram sobre alguns alicerces e pequenos amontoados de terra, provocados pelo desmanche causados pelas chuvas nas paredes de adobe de pilão.

                        Seguimos até o fundo da Igreja e a outro cômodo parecido com uma capela ou casa paroquial. 

ruinas_de_ouro_fino

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  A seu lado, havia os restos das paredes em ruínas do cemitério, e diversos túmulos destruídos.

cemitério_de_ouro_fino

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                        Dizem os contadores de prosa da região que um daqueles túmulos seria o do “Chico Mineiro”, cantado por Tonico e Tinoco.

tumulo_em_ouro_fino

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                        Não se pode afirmar a veracidade desse fato sobre Chico Mineiro, mas é contado pelos moradores da região como fato. Dizem que ele  realmente existiu, teria nascido em uma localidade próxima a Patos de Minas e trabalhava com compra e venda de gado.

                        Teria atravessado constantemente esses rincões comprando e levando boiadas nas primeiras décadas do século XX.  E teria sido assassinado no local e enterrado nesse cemitério anexo à Igreja do Pilar.

                        Conseguimos visualizar ainda, em comprido, os alicerces do antigo seminário. 

                        O Arraial de Ouro Fino começou a definhar quando da queda da ponte do Rio Uru, quando da mudança da estrada real para um novo caminho seguindo para Goiás e, por fim, com a mudança da Capital do estado para Goiânia, onde os filhos de Ouro Fino buscaram essa cidade para trabalhar e estudar.

                        A partir da Inauguração de Goiânia, pouco tempo durou o Arraial e as casas abandonadas.

                        Deixamos as lembranças de Ouro Fino no silêncio e na solidão, interrompidas apenas pelo canto dos pássaros, mas extremamente felizes por termos, nessa etapa, visitado todos os primeiros arraiais bandeirantes, que muito contribuíram para a colonização do sertão, bem como para a ampliação de nossas fronteiras além de Tordesilhas.