(por: José Rodolpho Assenço)

                        Arraial da Barra, hoje também conhecido como distrito de Buenolândia, representa o primeiro povoamento colonizador, o marco zero de Goiás, palco da história de Anhanguera, pai e filho.

                        Conhecedor de parte dessa história, busquei arregimentar, junto com o fotógrafo Cleber Medeiros, uma excursão fotográfica com o objetivo de identificar e materializar tudo aquilo que havíamos estudado a respeito. Acompanharam-nos minha filha Carol e Jaque Araújo, esta também fotógrafa.  Escolhemos um final de semana com feriado na segunda-feira, de forma a nos proporcionar o tempo necessário para conhecer não só a Barra, como também os demais arraiais fundados por Anhanguera.

                        Escolhemos o dia seguinte de nossa chegada para seguir para o Arraial da Barra, distante uns cinquenta quilômetros do local onde estávamos, sendo uns vinte deles em estrada de terra de má qualidade.

arraial_da_barra

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                        Conta a história que Bartolomeu Bueno da Silva (o pai) em 1684 teria alcançado tal local em uma numerosa bandeira para conhecer o local e capturar índios com fins de escravizá-los. Acompanhava o grupo seu filho de aproximadamente 12 anos.

                        No citado local da foz do Rio Bugres com o Rio Vermelho, teria Bartolomeu encontrado um grupo de índios e, ainda, uma grande pepita de ouro de aluvião do tamanho aproximado de um dedo polegar.  Teria sido nesse local que Bartolomeu Bueno (pai) tocara fogo em uma bandeja de álcool para afugentar o grande número de índios, episódio esse que lhe dera o nome de Anhanguera, algo semelhante a velho que cospe fogo, ou diabo velho.

                        Em 1722, uma grande bandeira foi montada e chefiada pelo seu filho Bartolomeu Bueno da Silva, com a finalidade de atingir e conquistar esse mesmo local, descoberto pelo seu pai. Na investida, participaram alguns milhares de brancos e escravos e, nesse mesmo ano, eles teriam atingido Goiás, porém se perderam, não conseguindo alcançar o mesmo local. E pior ainda, nesse episódio, com a chegada das chuvas, diversos componentes adoeceram, morreram e outra parte dessa tropa teria desertado e voltado a São Paulo.

                        Depois de muitas baixas, no ano seguinte, Anhanguera (filho) atingiu seu objetivo na barra do Rio Bugres e decidiu, antes de retornar com a bandeira, deixar aproximadamente trezentos homens no local, ao qual ele retornou em 1725 e, assim, surgiu o primeiro povoamento de Goiás.

                        Anhanguera edificou uma casa e ordenou também que construíssem uma Igreja nesse primeiro arraial.

marco_zero_de_goiás

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                        Retornando a nossa excursão, logo que entramos na Barra, pudemos observar que o local, embora tivesse poucas construções remanescentes do ciclo do ouro, encontra-se bem arborizado, bem cuidado, com uma praça central muito grande que se estende até a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, a primeira da região. Nessa obra, aliás, não há registro de data, acredita-se, porém, que sua construção tenha ocorrido aproximadamente em 1730.

igreja_de_nossa_senhora_do_rosário

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                        Além do conjunto da Igreja, há um cemitério anexo, cercado por um muro branco em adobe com uma porta central com soleira e, bem à frente dessa porta central, uma construção em madeira, que nos remete a algo como um coreto, todavia, sua posição geográfica, diante do conjunto, indica que tal construção servia, ou serve, também como um espaço para velar os mortos.

cemitério_e_igreja_do_rosário

cemitério_e_igreja_do_rosário

                        Logo que chegamos a esse local, iniciamos nossas fotos ao redor Igreja e de todo o conjunto que a compõe, o que inclui também em madeira não trabalhada o conjunto de dois sinos de cobre já bem desgastados pelo tempo. Não conseguimos ler o que nele estavam escrito.

sinos_da_igreja_do_rosário

sinos_da_igreja_do_rosário

                        Fotografávamos a Igreja e seus detalhes quando um jovem veio em uma pequena motocicleta para nos dar uma importante informação, de que a guarda da chave da Igreja estava sob os cuidados da Senhora Luciene, que trabalha e mora em um cartório numa casa ao lado.

nave_da_igreja_do_rosário_no_arraial_da_barra

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                        Logo a simpática senhora nos abriu a oportunidade de conhecer e fotografar o interior da igreja e também nos contou algumas peculiaridade sobre a edificação, tais como, que suas obras originais entalhadas em madeira, em especial a de Nossa Senhora, estavam em Goiânia; que, com relação a essa santa, naquele local, teria ficado somente uma réplica, isso por alegada medida de segurança; falou rapidamente da última manutenção desse singelo santuário e nos avisou que a Igreja abre oficialmente para uma missa por mês, exceto nos meses de festa da cidade ou de padroeira.

capela_da_igreja_do_rosário

capela_da_igreja_do_rosário

                        Finalizada a visita à Igreja, seguimos para o cemitério, ao lado. Tudo abandonado, com túmulos destruídos.  

cemitério_no_arraial_da_barra

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                        Partimos, em seguida, para fotografar as poucas casas históricas que ainda restam no local, tendo conhecimento, porém, de que, infelizmente, a casa de Bartolomeu Bueno não existia mais, pois veio a ruir há aproximadamente dez anos, estando no local hoje um estábulo e laticínio.

casa_no_arraial_da_barra

casa_no_arraial_da_barra

                        Nessa visita pelas casas, uma delas, com características de construção singela do ciclo do ouro, nos chamou atenção: uma bela casinha amarela, que teria sido a primeira de uma grande loja nacional de departamentos na região.

antiga_loja arraial_da_barra

antiga_loja arraial_da_barra

                        Prosseguimos caminhando no povoado e no outro lado da praça, encontramos a venda de dona Geralda, onde, bebemos um refrigente com um nome esquisito e com o sabar mais esquisito ainda.  Seguimos nossa caminhada de retorno ao carro no intuito de finalizar nossa estada.

buenolândia

buenolândia

                        A essa altura, o calor estava por volta de 40 graus e, como já passava do meio-dia, paramos, por fim, na venda de dona Vaninha para tomar água e comer uma peta, biscoito de povilho comum no interior de Goiás.  A venda possui uma mascote, uma atração especial: o papagaio “Caçula” que gosta de brincar com todos que por ali passam.